Só quem é do interior sabe

Pense em um lugar no sertão, interior do Nordeste, com cerca de 10 mil habitantes. Não é uma cidade, é difícil de ser encontrada nos mapas e praticamente tudo gira em torno de uma prefeitura.

Pensou? Pois é, foi nesse lugar que eu nasci!

E vos digo que se Deus não te deu a audácia de nascer em uma cidade de interior como eu, vou te contar o que você acabou perdendo. É no interior do Nordeste que as coisas ficam ainda mais interessantes.

Quem não é do interior não conhece a aglomeração que um dia de feira traz. Barracas (vulgo bancas) armadas no meio da rua com as últimas novidades da cidade, vendendo um pouco de tudo que você imaginar. Tem banca de DVD e CD, de roupa, de panela (de barro, de aço, de alumínio), tem vendedor de planta, de tempero, de galinha e de pinto colorido; lá você encontra sandália, boné e sempre, sempre terá aquele som maroto tocando os últimos lançamentos de forró para atrair melhor a clientela.

“O tempo passa e a gente vê as coisas de um jeito diferente. É impossível que a magia seja mesmo eternamente…” Quem nunca ouviu Desejo de Menina no som da banca, não viveu um dia de feira em sua vida (rsrsrsrsrsr).

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Já comprei muita bijuteria na feira! E nem vou falar dos pintos coloridos! Quem é do interior e nunca teve um pinto colorido não sabe o que é o desprazer de conviver com a morte precoce ainda criança. Porque, claro, com tanta química que colocavam nos pobres dos pintos eles duravam pouco mais de dois dias após comprados.

 

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Outro fato legal no interior são as festas do Padroeiro. Sim, Padroeiro: o Santo da cidade! No interior do Nordeste a religião católica é muito forte e parte da cultura e do calendário festivo da cidade sofre influência da mesma. Então, basicamente, toda cidade tem o mês especial para o Padroeiro.

No meu interior (Nascente) esse mês é Agosto! Quem nunca esperou ansioso pelo mês de agosto nunca saberá o que é passar o dia em Araripina fazendo as compras do ano, sentir o cheiro de roupa nova, fazer calo no pé da sandália recém comprada, ter o que fazer todos os dias da semana, ouvir a “competição” de queima de fogos no final das missas e, claro, animar-se por ver caras novas na cidade.

 

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Lembro que quando eu era criança/adolescente havia três datas que marcavam o meu ano: o aniversário da minha bisavó (Neném), o Natal e as Festas de Agosto.

Lembrar de “Agosto” me traz um sentimento tão bom!

Por que só quem é do interior sabe o valor e a emoção que são esses dias festivos! Imagina aí o que é viver quase que 80% do seu ano sem nenhum acontecimento diferente do usual. Então, para um adolescente principalmente, é na festa de Agosto que as histórias mais marcantes acontecem!

Talvez hoje em dia isso esteja um pouco diferente. A tecnologia, a facilidade de locomoção, a maior liberdade e modernidade certamente propiciam experiências que na minha época eu não vivi. Mas foi essa ausência que talvez tenha trazido mais valor a cada “Agosto” que vivenciei.

Ainda falando das festas da padroeira, tem programação a semana inteira! Tudo começa pelas noites de novena. Fecho os olhos e consigo sentir o frio que é sentar do lado de fora da igreja e a expectativa para ver como ia ser a entrada da bíblia:

Sim, porque a missa, além de tudo, sempre foi espaço para as pessoas expressarem seus dons artísticos. Quem duvida disso é porque nunca viu um carro alegórico passar com a cruz, a bíblia voar por um fio transparente até o palco ou a dramatização da Paixão de Cristo e do Lava Pés.

Outra coisa que as novenas me lembram é a competição de fogos de artifício (Ipanema perde feio no réveillon). Como cada noite de novena tem as famílias patrocinadoras (TODAS, TODAS as famílias são listadas) elas são responsáveis pela queima de fogos ao final de cada missa. E, lógico, ninguém quer ficar para trás não!

“Você viu que a queima de fogos da família tal teve até fogos coloridos!”

“Nossa, a família x botou para arrombar nos fogos! Durou quase uma hora!” Sim, uma hora! Por que um requisito para ser do interior é ser exagerado, kkkk.

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Missa de Agosto me lembra carrinho de pipoca com manteiga (nunca consegui fazer uma igual em casa), algodão doce e maçã caramelizada. Quem nunca insistiu em comprar mais de uma maçã caramelizada em agosto não sabe nada sobre a decepção de saborear uma fruta podre por dentro e tão linda por fora. Quem é da minha época, certamente lembrará de “Daiele das maçãs” também, kkkkkk.

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Era tudo tão simples, mas com tanto TANTO significado! Lembro muito saudosa de cada detalhe!

Quem não é do interior também nunca saberá o que é namorar nos bancos das praças. Cresci vendo praças cheias de casais de namorados, de todos os tipos (dos mais acatados aos mais assanhados). Quem é de Nascente, por exemplo, e nunca foi na praça de baixo espionar os esquemas do povo não sabe o que é ter estágio de detetive no seu currículo.

Estava lendo esses dias o livro “Cem anos de solidão” de Gabriel García Márquez no qual ele fala de “Macondo”, uma cidadezinha pequena que me trouxe muitas memórias do lugar que eu nasci. No livro ele traz as visitas dos ciganos com as suas invenções e novidades do “mundo moderno”.

Só lembrei dos ambulantes de porta em porta com os almanaques gigantes, as fotografias de escola em molduras (acho que todo mundo da minha época teve uma, srsrrsrs), as coletâneas de livros infantis e escolares e os remédios que curam todas as doenças, inclusive as que você ainda nem conhece.

Na minha cidade vez ou outra apareciam os chamados “ciganos” também. Quem viveu certamente lembrará do medo instalado na cidade desses desconhecidos e dos assuntos gerados sobre o mistério e a dúvida: “Será se eles leem o futuro nas mãos mesmo?”

Tudo, absolutamente tudo vira assunto para quem vive no interior. E a gente adora um assunto diferente para ter o que comentar nas calçadas a semana toda:

“Tu viu que a filha de Seu Fulano se separou do marido? Tão dizendo que é por causa dos homens da firma!”

  • Esse é um aspecto interessante, renderia até uma historinha só para esse tópico e poderia até chamar de “Depois da firma a cidade não é mais a mesma”, rsrsrsrs. Em resumo, depois que uma firma chegou na cidade nada foi mais o mesmo. Inclusive, dizem que muitos casais se separaram por causa dela, rsrsrsrs. Quem não viveu dificilmente entenderá!

“E o acidente de moto da filha de Dona Fulana, parece que ela quebrou dois dentes da frente, ralou o joelho e tá com a boca inchada. Escapou fedendo da morte!”

  • Acredito que o assunto que dá mais ibope em interior se chama “ACIDENTE”. As pessoas vão a loucura! Todo mundo quer saber de detalhes e, certamente, haverá quase que uma competição para mostrar quem sabe mais sobre o ocorrido. Em cada esquina haverá uma versão! Sem falar nos fotógrafos e jornalistas que pegam a notícia quentinha e vão diretamente ao local do acidente apurar os fatos.

“Tu tá sabendo que Fulana fez uma festa de aniversário do filho e o bolo não deu para todo mundo?”

  • Só quem é do interior sabe o significado real de “minha vida é um livro aberto” e de “eu não tenho privacidade”. É incrível, todo mundo sabe da vida de todo mundo! Vez ou outra ainda me surpreendo com os detalhes que as pessoas sabem e contam.

“Tu viu o homem que chegou de fora? Dizem que ele é sobrinho de Fulano e veio de São Paulo passar uns tempos aqui.”

  • Se você é do interior, facilmente identificará uma cara nova no pedaço. Para essas damos o nome de “de fora”. Então se você não é da cidade, prepare-se para ser alvo de especulações sobre toda a sua vida. De bônus você ainda fará sucesso com as (os) nativas (os), por que você pode até não ser provido de uma beleza rara, mas, para a gente do interior, se você for “de fora” já subiu 10 degraus na frente de quem não é, ssrrsrsrsrsrsr. Não sei se ainda é assim, mas lembro que na minha adolescência tinha isso.

“Ouvi falar que ela vai entrar de rosa na igreja e que uma das madrinhas é de Araripina”

  • Em interior não existe isso de casamento privado não. Principalmente se você for alguém mais conhecido na cidade ou se o seu casamento envolver alguma polêmica. Haverá pessoas (não convidas) na praça da igreja te esperando para ver como você vai entrar, quem são as suas damas de honra e seus padrinhos.
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Quando penso no interior lembro do cheiro de chuva e de terra molhada. Era difícil chover e talvez por isso tenha ficado tão marcado na minha memória isso. Banho de biqueira nas ruas (a melhor biqueira sempre foi a da Escola Virgílio Coelho), as brincadeiras na terra, o frescor do corpo, o cabelo molhado e os lábios roxos de quem não sabia a hora de sair da chuva.

E por falar em chuva, que saudade da Barriguda! Para quem não sabe, a Barriguda é o maior e mais conhecido açude da minha cidade. E interior que tem açude sabe da felicidade que é vê-lo “sangrar”.

Sangrar – método utilizado para escoar a água dos barreiros/açudes e evitar alagamentos. Quando o açude recebe muita água da chuva parte da água vai escoando pelo sangrador. No caso da Barriguda, esse sangrador parece uma espécie de cachoeira misturada com um deque molhado, rsrsrs.

Outra época que marcou muito a minha infância e adolescência foi o “sangramento da Barriguda”. Não tinha data certa para acontecer, pois dependia das chuvas, mas quando acontecia era o ponto de encontro da população. Quem não é do interior não sabe o que é encher a boia de pneu, usar garrafa pet de boia, fazer a quentinha e ir de malas e cuia tomar um sol no sangrador do açude.

Lembro que era tudo tão simples, tão primitivo e tão natural, mas cheio de tanto significado! Foi lá que eu vi uma “piaba” (filhote de peixe) pela primeira vez, onde eu dei minhas primeiras braçadas na água e onde eu passei a ter medo de estar na água também, ao saber que minha prima Karol quase morre afogada.

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Quem não é de interior nunca sentirá a adrenalina de andar em uma roda gigante enferrujada com os bancos rangendo e balançando quando chega lá em cima. Não saberá o que é tentar atirar nos pirulitos zorro e nas chuvinhas e não acertar nenhum. No que é sair com as mãos vermelhas e ardendo de tanto puxar as cordas da canoa e, claro, de tirar foto sentada em cima dos cavalinhos empalhados (isso para quem é bem criança).

O primeiro parque que eu fui na vida foi em Nascente e para mim sempre foi muito divertido e encantador!

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Preciso falar dos circos também. Eles montavam a cabana na cidade e passavam semanas! Lembro que eles dormiam dentro dos caminhões. Tinham mulheres, crianças, jovens… e eu sempre me perguntava como devia ser viver dentro de um carro viajando pelo mundo. Chamava-me a atenção a aparente liberdade que essas pessoas tinham. E sempre tive medo de ser convidada pelo palhaço para o centro da atração!

Enfim, é tanta coisa! Os grandes desfiles de sete de setembro, os rodeios, as vaquejadas, as comícios com shows e carreatas, as apresentações da escola… é tanta coisa para lembrar que fica difícil colocar no papel!

São tantas coisas para contar e reviver!

São memórias tão gostosas!

Talvez esse mundo que eu conheci tenha mudado ou as versões não tenham a mesma graça quanto tiveram para mim antes. A sensação é que o tempo passa e as coisas vão perdendo o seu valor, o seu significado ou que o outro mundo, revelado pelas tantas telas (celular, televisão…) esteja mostrando outros atrativos. Ou talvez foi apenas eu mesma que mudei!

Considerar-me-ei mesmo assim uma privilegiada por ter vivido de forma tão simples, mas com tanto significado!

E você, é do interior também? Deixa aí nos comentários algo interessante sobre a sua cidade também!

Depois conto mais histórias!

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