Os altos e baixos de uma profissional da área de Gestão da Qualidade

altos e baixos

Há uns quatro anos atrás eu aceitei um grande desafio na minha vida profissional de assumir a área de Gestão da Qualidade em uma organização.

Digo que foi um grande desafio, primeiro porque era uma área totalmente nova para mim. Sou enfermeira e na faculdade pouco havia aprendido sobre gestão (o que hoje eu entendo como um absurdo não ter um espaço na grade acadêmica dedicada a esse tema, em qualquer tipo de curso). Segundo, porque é uma área que precisa de tempo, paciência e calma para alcançar resultados e sobre isso vou falar mais adiante.

Abracei a oportunidade e depois de um ano conturbado para me encontrar dentro da área, aprender sobre normas de qualificação e me aprofundar mais no mundo de gestão eu me vi encantada com as tantas possibilidades que a teoria, quando aplicada, poderia trazer para a organização e com o papel de transformação da mesma em qualquer tipo de negócio.

E sabe aquele olhar de quando você se apaixona ou de quando você entra na faculdade sonhando em se formar, conseguir o emprego dos sonhos e ser rico? Pois é, era mais ou menos com esse olhar, de quem enxerga mil flores e resultados incríveis, que eu tinha nos primeiros anos atuando na área de qualidade.

"Poxa, como eu não conheci esse mundo antes e como eu consegui viver sem isso até então? Como alguém poderia não gostar de normas de qualificação, de planejamento, de gestão de não conformidades, de indicadores e de tantas outras ferramentas que podem ser a chave para o sucesso?"

Com o passar do tempo esse cenário foi mudando dentro de mim. O olhar não era o mesmo e a paixão estava esfriando (ainda que o amor pelo que eu acreditava ser algo permanente). E é aqui que eu trago a questão que citei no início: "gestão da qualidade é uma área que precisa de tempo, paciência e calma", principalmente para a mudança de cultura. Foi aqui o meu principal ponto de frustração e, pelas tantas trocas de experiências que tive com colegas da área de diferentes organizações e localidades esse é o um ponto crítico comum.

“É preciso desenvolver muito mais que o conhecimento técnico para propagar o conhecimento nas organizações, principalmente quando se trata da implantação de um sistema de gestão.”

É necessário desenvolver habilidades de liderança e persuasão para fazer com que dirigentes, gestores e colaboradores abracem as mudanças entendendo-as como importantes e significantes para seu dia-a-dia. É preciso ser criativo para se renovar a cada treinamento, a cada reunião, a cada desenvolvimento de metodologias educativas, para não parecer o cara chato e repetitivo depois da vigésima orientação sobre como desenvolver uma análise crítica de um indicador ou de uma não conformidade, por exemplo.

"Você possivelmente irá precisar treinar sobre o mesmo assunto tantas vezes que você precisará ter energia para você mesmo não se achar o cara chato e perder o encanto e entusiasmo ao repassar o que você tanto acredita.”

Mas, apesar de crucial, a comunicação por se só não basta! O engajamento também depende do interesse, dedicação e comprometimento de todos que compõem a organização. É muito difícil lutar pelo que você acredita quando você está sozinho!

Ao longo dessa carreira você poderá encontrar pessoas com os mesmos interesses que os seus, com a mesma sede por gestão e conhecimento. Aconselho tê-los sempre por perto. Isso mantem a boa energia naqueles dias que você quer chutar o balde. Mas você poderá encontrar também pessoas que não acreditam na causa. Na verdade, depois de um tempo você entende que dentro desse grupo existem os que não acreditam por falta de conhecimento e aqueles que não acreditam "por não quererem mexer no que está quieto".

"Até porque, você há de convir comigo que, para muitos é mais fácil mesmo fazer algo do mesmo jeito que você fazia há anos (mesmo sem saber se está dando certo, se é o jeito mais fácil ou se não existe coisa melhor). Para esse tipo de colaborador a empresa deve estar alerta!"

E sabe o que mais impacta ao longo dessa jornada? Conhecer gestores que não pensam em gestão. Não sei se por falta de identificação ou habilidade com a causa, conhecimento superficial, zona de conforto na atuação por meio métodos superficiais e antigos, enfim, a questão é que o problema existe e isso pode ser um grande risco para a implantação de qualquer sistema de gestão.

Mudar cultura é difícil justamente por isso, porque falar de cultura é falar de gestão de pessoas levando em consideração todos os seus aspectos: perspectivas, conhecimentos, habilidades e comportamentos. Se seu gerenciamento de pessoas é frágil, provavelmente você terá mais dificuldade em implantar um novo sistema, processo ou projeto.

“E demorei um pouco para reconhecer o mix de metodologias de comunicação que eu precisava desenvolver para cada tipo de colaborador que eu trabalhava.”

E sabe o que mais comemorei ao longo desses anos? O desenvolvimento e engajamento de colaboradores no Sistema de Gestão da Qualidade. Lembro bem das trocas de olhares orgulhosos com minha grande colega de trabalho @mayaracastro a cada vez que um colaborador entrava na sala, por livre e espontâneo interesse, para falar sobre uma Não Conformidade, para discutir a melhoria de um processo ou para falar sobre indicadores.

“E não vou nem comentar sobre a satisfação de ler uma análise crítica bem elaborada sobre um indicador setorial.”

Terão aqueles casos sem solução, de colaboradores que nunca abraçarão a causa também. Mas, diferente do que eu fiz, não se frustre! Depois de mais de quatro anos na área eu entendi que esses casos ultrapassam seu poder de comunicação, persuasão e outras tantas habilidades que você tenha desenvolvido. A organização que precisará definir sobre os rumos dos que nadam contra a corrente.

E aqui trago importantes entendimentos sobre esses casos:

  1. Não perca seu sono por problemas que você não pode solucionar (que não estão nas suas mãos e que ultrapassam sua hierarquia).
  2. Você não irá resolver todos os problemas da organização em que trabalha.
  3. Você não é responsável sozinho pelo sucesso ou fracasso do sistema de gestão. O funcionamento do mesmo depende da contribuição diária de cada um.

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